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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Texto fora de contexto... Romanos 8:37



Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou”. (Romanos 8:37)
            O triunfalismo, a ideia de que o crente deve ser vitorioso em todas as áreas de sua vida, é uma das principais marcas da grande maioria das igrejas evangélicas no Brasil. Isso pode ser visto, por exemplo, nos chamados “culto da vitória”, que muitas igrejas possuem. Ou mesmo nas músicas de vários cantores e cantoras, focadas em motivar aos crentes a serem vitoriosos sobre qualquer inimigo e qualquer adversidade.
 
            Não tenho dúvidas, contudo, que o principal texto usado para defender a ideia triunfalista é Romanos 8:37, pois, nele, São Paulo diz com muita clareza “Em TUDO somos mais que vencedores”. A maneira triunfalista de entender esse texto é mais ou menos assim: Se somos mais do que vencedores em todas as coisas, então devo declarar a minha vitória sobre qualquer dificuldade, seja doença, seja crise conjugal, seja desemprego, e Cristo me restituirá em dobro o que eu perdi. A ideia, portanto, baseada nesse texto, é que a vitória sobre o desemprego é um emprego melhor; a vitória sobre a doença, é a cura; a vitória sobre uma crise financeira é a prosperidade. O que o crente precisa, assim, se já é mais que vencedor sobre todas essas coisas, é simplesmente declarar a sua vitória, pois como diz uma das músicas triunfalistas “posso enfrentar o que for, eu sei quem luta por mim”. Só que não... não é isso que o texto quer dizer.
 
            O segredo para se entender bem este texto é analisar no contexto a resposta para duas questões: 1) Quais são “todas estas coisas”?; e 2) O que é ser mais que vencedor sobre estas coisas?. Vamos à primeira.
 
            Uma análise do contexto mais amplo nos revela que o apóstolo Paulo deseja demonstrar os privilégios de pertencer a Cristo a despeito dos sofrimentos da era presente. É isso que ele diz em Romanos 8:18: 

Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós

            Ou seja, um dos privilégios de pertencer a Cristo é ter uma viva esperança de um futuro glorioso. É por isso que Paulo diz que “na esperança, fomos salvos.” (Rom 8:24). Também, é por isso que ele diz: “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rom 8:28). Já vimos em outro lugar que este propósito de Deus é, no futuro, nos tornar à imagem de Cristo, sendo isto (ser à imagem de Cristo) a nossa glória futura. 
 
            Diante de tamanha promessa, a qual conclusão chegamos? A de que Deus é por nós (v. 31). Temos um Deus que, juntamente com Cristo, nos deu privilégios maravilhosos (v.32), como a eleição, a justificação (v.33), a interseção de Cristo em nosso favor (v.34) e a união inviolável com o amor de Cristo (v.35). E é exatamente neste último privilégio que o apóstolo Paulo alista uma série de dificuldades que todo crente pode passar, especialmente aqueles que, como Paulo, enfrentam oposição. Ele alista “tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada”.
 
            Isto significa, então, que o crente é um derrotado? Isto significa que deve-se considerar uma perda seguir a Cristo, visto que o grande resultado é futuro, e no presente há tanto sofrimento? A resposta de Paulo é que não, pois em “todas estas coisas”, ou seja, “nos sofrimentos da era presente”, e mais especificamente “tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada”, somos mais que vencedores. Portanto, já temos a resposta à nossa primeira pergunta “Quais são ‘todas estas coisas?’”: São os sofrimentos do tempo presente, especialmente os decorrentes do serviço a Cristo, alistados no versículo 35 de Romanos 8.
 
            E o que é ser mais que vencedor sobre todas estas coisas? A resposta, agora que analisamos o contexto, ficou mais fácil. Mas antes, já podemos descartar qualquer sentido “materialista” para esta vitória. Definitivamente, para Paulo, a vitória da tribulação, por exemplo, não é uma casa de praia, com uma rede balançando sob a brisa do mar, e um cheirinho bom de churrasco assando na beira da piscina.  A vitória não é a satisfação da ganância, ou de qualquer outra expectativa centrada no ego humano. A vitória é “por meio daquele que nos amou”, como diz o restante do texto, e não tem nenhuma relação com tais interesses mesquinhos. Isto seria ser apenas “vencedor”. Mas Paulo faz questão de dizer que, em Cristo, somos “MAIS que vencedores”.
 
            À luz do contexto, o que vemos é que nenhum destes sofrimentos é capaz de nos separar do amor de Cristo (vs 38,39). Sendo assim, nada retira dos filhos de Deus os privilégios oriundos do amor de Cristo por nós, como a nossa eleição, nossa justificação e a nossa esperança de um futuro glorioso com Deus. Embora saudável ou doente, empregado ou desempregado, rico ou pobre, vivo ou morto, nada nos separa das grandiosas bênçãos amorosas oriundas da nossa união com Cristo, e nisso está a nossa vitória! Eis, portanto, a nossa vitória: nada nos separa do amor de Cristo!
 
            Pondo em termos práticos, o que um pastor deveria dizer a um irmão que está lutando contra o câncer? Se ele entender errado o texto de Romanos 8:37, ele diria: “Irmão, em Cristo somos mais que vencedores. Venha aqui que eu vou declarar a sua vitória sobre esta doença, e Deus vai te dar a cura neste dia!”. Porém, se ele entende tal texto em seu contexto, ele falaria: “Irmão, em Cristo somos mais que vencedores. Saiba que nosso desejo e oração é sua cura, porém louvamos a Deus que esta doença não pode te separar do amor de Cristo e, assim, podemos ter a confiança que seu futuro é glorioso, apesar deste seu sofrimento!”.

            Em resumo, o crente é mais que vencedor sobre qualquer dificuldade de sua vida? Sim. Mas sua vitória consiste em estar unido a Cristo e ter a convicção de seu amor e de um futuro glorioso, apesar dos sofrimentos presentes. É isto que Romanos 8:37, em seu contexto, significa. 

Pr. Antônio Neto

Fonte: Igreja Batista Luz do Mundo

quinta-feira, 20 de março de 2014

Texto fora de Contexto - Romanos 8:28



Rom 8:28  Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.
            O texto de Romanos 8:28 é um daqueles prediletos de muita gente. Se fizéssemos uma pesquisa, não seria surpreendente ver este versículo como um dos mais conhecidos dos evangélicos, mais até, talvez, do que João 3:16. O motivo para isso reside no fato da cada vez mais crescente mania evangélica de considerar a Bíblia como um livro de autoajuda. Consequentemente, aqueles versículos que motivam, falam de triunfo, consolam e animam serão os prediletos nas pregações e nas conversas informais.
             No caso desse texto, não é incomum vê-lo sendo utilizado com propósitos motivacionais. Porém, para entendermos como ele é usado para motivar, imagine uma situação onde você é dono de uma empresa, e então descobre que ela vai à falência. Um amado irmão em Cristo, na expectativa de te animar, chega para você e diz “Querido, saiba que todas as coisas cooperam para o nosso bem. Deus há de te dar uma empresa melhor e maior. Você vai sair dessa!”.
Esta pessoa entende que tal versículo significa que todas as coisas que ocorrem na sua vida cooperam para circunstâncias ainda melhores. Ou seja, se um ladrão te furta algo, é porque Deus vai te dar algo melhor ainda. Se você termina um namoro, é porque Deus vai te dar um namoro ainda melhor. Se você não passa na prova do vestibular, é porque Deus vai te colocar em uma faculdade superior. Porém, será que é isso mesmo?
Não, não é isso! Não é isso que o texto ensina. Na verdade, o problema todo reside no que o apóstolo Paulo, o escritor desse texto, quer dizer com a palavrinha “bem”. E a resposta está um versículo depois, em Romanos 8:29:
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”
Note que este versículo começa com a conjunção “Porquanto”. Isto significa que este versículo explica algo do anterior. O verso 28 ensina que tudo coopera para o bem daqueles a quem Deus chamou segundo o seu propósito. A pergunta, então, é “Por que tudo coopera para o nosso bem?”.
A resposta é que Deus nos chamou para um propósito, descrito no verso 29, o de sermos conformes (da mesma forma) à imagem de Cristo. Ou seja, Deus nos chamou para sermos parecidos com Cristo; para que Cristo seja transparecido por meio de nossas vidas. Deus já nos destinou de antemão para isso, mas ele já está trabalhando em nós para este fim.
Outros textos da Bíblia mostram como Deus tanto deseja que sejamos cada vez mais parecidos com Cristo, quanto que isso ocorrerá plenamente no futuro. Veja alguns exemplos:
Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” Col 3:9,10
Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é.” 1 Jo 3:2
Note como o primeiro versículo mostra que já estamos sendo feitos à imagem de Cristo. Já o segundo versículo diz que, quando Cristo vier, seremos semelhantes a ele (você lembra da expressão “imagem e semelhança” lá de Gênesis? São palavras sinônimas, por isso o termo “semelhança” é usado em 1 João).
Agora sim podemos entender o que Paulo quis dizer com a palavrinha “bem” em Rm 8:28. Com esta palavra, o apóstolo tinha em mente o propósito de Deus de nos tornar mais semelhantes a Cristo. Ou seja, tudo o que acontece na vida dos crentes tem o propósito de torna-los mais parecidos com o Senhor Jesus Cristo. Este é o nosso “bem”.
O real valor, portanto, desse trecho que analisamos é entender qual é, de fato, o maior bem de nossas vidas, aquilo pelo qual devemos desejar com mais vigor. Se tivermos como nosso maior desejo o ser mais parecidos com Cristo, então este versículo é extremamente apropriado para nos consolar e motivar nas dificuldades. A perda de um emprego, a perda de um ente querido, a descoberta de uma doença, o fracasso em uma prova importante, tudo isso tem o propósito de nos tornar mais semelhantes a Cristo. Nossas dificuldades servem como um martelo na mão do escultor, que vai retirando excessos e dando a forma apropriada à sua escultura.
Por isso, quando for utilizar este trecho para o seu próprio consolo, ou o consolo de alguém, simplesmente troque a palavrinha “bem” por “nos tornar mais parecidos com Cristo”. Desta forma, você usará este texto em seu contexto, e oferecerá um consolo apropriado para todas as circunstâncias.
In omnibus glorifectur Deus.

Pr. Antônio Neto

Fonte: Igreja Batista Luz do Mundo

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Texto fora de contexto... Mateus 18:20

Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio delesMateus 18:20

Lembro como se fosse hoje! Eu, ainda criança, chego com meus pais na igreja para o culto. Notamos, então, que apenas a nossa família e mais outra estão presentes, e mais a família do pastor. Parece uma situação triste, pouca gente no culto. O que o pastor falaria, então, para consolar e animar aos presentes? Ele escolheu citar Mateus 18:20 para sabermos que Cristo estava entre nós! Mas, espera aí: Acho que não é bem assim...

Poucos textos são tão utilizados de maneira errônea quanto Mateus 18:20. Eu mesmo já ouvi este trecho sendo usado para oração em grupo, e até como base para dizer que não é preciso ir para o culto, pois a família com filhos já soma no mínimo 3! Porém, é da maneira como foi usado nesta minha experiência que ele mais é utilizado, para motivar a um grupo pequeno no culto, afirmando que, embora poucos, Cristo está presente.

Em primeiro lugar, não é errado motivar aos irmãos lembrando-lhes da presença de Cristo no culto. Porém, outros textos poderiam ser usados, pois o de Mateus 18:20 definitivamente não trata disso. De que trata, então?

Regrinha básica em ação: analise o texto no seu contexto. Fazendo isso, você notará que o contexto trata de disciplina na igreja. Jesus está ensinando aos seus discípulos sobre como lidar com um irmão que peca. Primeiro passo, falar com ele. Segundo passo, levar mais uma ou duas testemunhas (decore estes números). Terceiro passo, falar para a igreja. Se, depois de tudo isso, a pessoa recusa-se a abandonar o seu pecado, ela deve ser excluída da igreja.

Assim, os versos 18 e 19 mostram que este processo é autorizado por Deus. Preste bem atenção e você verá Jesus falando de “terra” e “céu” algumas vezes nestes versículos. O que ele quer dizer é que, embora o tratamento do pecado lide com problemas “aqui da terra”, Deus, que está “no céu”, também está relacionado.

Desta forma, veja que o versículo 20 começa com um “Porque”. Se começa assim, então ele está completando uma ideia anterior e, por isso, para entendê-lo, é preciso entender o dito anteriormente. Mas nós já sabemos que o contexto fala de Deus autorizando “no céu” o tratamento do pecado “na terra”. Portanto, o versículo 20 fala exatamente sobre isso também, sobre tratamento de pecado, e sobre autorização divina!

O ensino deste verso, então, é que quando dois ou três se reunirem para lidar com o pecado de um irmão, isto terá a autoridade da presença espiritual do próprio Cristo! O próprio Senhor Jesus estará presente quando o segundo passo começar a ser praticado, dando peso àquela situação de exortação.

Por isso, não use Mateus 18:20 para motivar os poucos crentes presente no culto. Mas você pode usar muito bem para motivar aos presentes em uma assembleia onde se discutirá um pecado a ser tratado de alguém, pois é sobre isso que este texto fala.

Pr.Antônio Neto

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